Vermelho - Menina-que-vai-ser-psicóloga 1
Verde - Menina-que-vai-ser-psicóloga 2
Azul - Meus pensamentos
Entre colchetes ficam expressões faciais - as relevantes, pelo menos.
- Menina, você anda falando com a Raquel?
- Sim, conversei com ela ontem! E você?
- Ficou sabendo dos rolos com o Renato?
- Lá vem fofoca...
- Fiquei sim, aquela menina é louca!
- Taí a fofoca...
- Louca é apelido, ficar com o namorado da outra em festa da turma...
[sorriso nos lábios]
[nota que estou prestando atenção, mas finge que não vê] - Sabe, isso tudo tem uma explicação psicológica clara.
- Ai, socorro, vão começar um enorme discurso de psicólogo...
- Claro, é um fenômeno humano típico de final do século XX.
[olho instintivamente pro lado oposto do ônibus] - Começou.
...
A partir daí, me esforcei pra não ouvir mais nada e quase consegui. Só se ouvia um "blablabla ela não sabe ser ela mesma blablabla o sistema faz isso com as pessoas blablabla ela precisa de uma personalidade forte pra puxar ela blablabla". Até que, mais cedo ou mais tarde:
[olhar de triunfo, canto de olho prestando atenção na minha reação] - Você só diz isso porque é behaviorista. Como eu não sou, não concordo com isso.
É isso. Acaba aí.
Fiquei com vontade de olhar pra garota, que olhava pra mim quando soltou a última frase, sorrir pra ela e dizer:
- Eu sei o que é behaviorismo. E você, sabe construir um compilador?
Mas não disse, por modéstia e porque eu mesmo sofro pra construir um compilador. Pensei também em outras coisas, do tipo:
- Como vocês são inteligentes e interessantes! Impressionante como conseguem traçar paralelos das aulas teóricas para o dia-a-dia, estou estarrecido.
...Ou:
- Nossa, eu achei que a sua opinião indicasse a sua escola de psicologia, e não o contrário. Mas pelo visto, me enganei.
Mas acabei não dizendo nada. Não sei se por dó, se por gentileza, ou se simplesmente por falta de empolgação. Elas não iriam entender mesmo.

